Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Conversa de botas falidas

Fila do banco, meio dia e meia. A mocinha de colete laranja fazendo o que eles chamam de triagem, "é nessa fila aqui mesmo"; "já tentou no caixa eletrônico?"; "isso é só na central do cartão de crédito, por aqui não dá", etc, etc. Tem mais uma pessoa na minha frente. Atrás de mim, um senhor, de boné e camisa preta. Atrás dele, um negro, magro, de camiseta, calça jeans e chinelo. O homem Justificardo boné comenta com a moça da triagem que quer habilitar a função "crédito", do cartão, para comprar uma máquina de lavar. A moça pede um milhão de documentos e é interrompida. O negro, com grandes olhos tristes, começa a conversa.

- Espero que o meu não precise de tanta coisa. Afinal, vou só encerrar a conta.
- Encerrar?
- É. Desempregado, não dá pra ficar pagando taxa.
- Verdade. Desempregado faz tempo?
- Três meses. Quase quatro.
- Hum. Dureza, hein?
- Dureza. Ainda mais separando.
- Separando?
- É.
- Que coisa...
- Pois é. A gente tava bem. Ela foi visitar a mãe e voltou falando em divórcio.
- Puxa... família quando se mete...
- Homi de Deus, nunca neguei nada pra ela! Ela comprava roupa e, as vezes, me falava muito depois. Sapato, bolsa. Pegava trampo atrás de trampo só pra vê-la bonita.
- ...
- Eu não sei quem colocou minhoca na cabeça dela. Ela me amava, eu podia sentir isso. Agora, ela mal fala comigo.
- Que coisa...
- A minha vida piorou tanto depois que ela saiu, o senhor num imagina. Porque a bichinha era gastadeira, mas sabia administrar.
- Mulher sabe controlar, né?
- Ô! Ainda mais ela, muito inteligente. Eu sozinho não consigo nada. Tô devendo um monte, até pra agiota! Perdi o emprego e não consigo mais nada.
- ...
- Por isso que é melhor encerrar a conta mesmo! Além de tudo, é conta conjunta. Quando vem o extrato e leio o nome dela, dá vontade de chorar! Porque ela é quem fazia as contas, sabia quanto faltava pra quitar. Sozinho, meu senhor, nem trabalho eu consigo.
- E ela?
- Nada! Não consigo falar com ela. Só peço a Deus pra não ser outro homem, senão eu morro.
- Você ainda gosta bem dela, né?
- Se eu gosto? Ela foi a única coisa boa da minha vida.
- É...

A moça chama: "próximo". Era eu. E fui sem ouvir o resto. Chato histórias que têm começo e meio, mas não terminam.

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Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Is all my love in vain?

Um blues pro feriado.



E uma dica de filme.




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Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Assim dito

"A friend in need is a friend indeed". Ou: "amigo na necessidade é amigo de verdade". Ambas muito boas, anyway.

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Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Da relevância e do respeito

O que faz uma banda se tornar REALMENTE grande? Ok, ela vender muito por um grande período de tempo é um critério interessante - mas que só pode ser medido DEPOIS do disco pronto. O que eu quero saber é como uma banda se torna artisticamente grande e relevante. Pensando nas 02 últimas bandas de rock realmente grandes, que extrapolaram a fronteira do termo "rock", temos uma pista. Falo de U2 e Metallica. Você pode até pensar em Pearl Jam, mas nunca foram excepcionais vendedores de disco. Você pode pensar no Nirvana, mas não tiveram nem tempo de se estabilizar. Você pode pensar em Oasis ou até mesmo em Coldplay, mas são bandas que não atingiram um patamar realmente gigantesco (se o Oasis já atingiu, foi nos anos 90 e não manteve, então...).
Mas volto. Artisticamente, quais os caminhos que a banda faz? Adotando o U2 e o Metallica como exemplo, só me resta a palavra "reinventar". Arriscar, em nome da liberdade artística, da inquietação dos grandes nomes. Guinadas radicais na carreira. E, curiosamente, a grande guinada para as 02 bandas veio em 1991, respectivamente com os discos "Achtung Baby" e "Metallica" (ou "Black Album"). São sonoridades diferentes entre si, tanto quanto U2 e Metallica são diferentes. Mas representaram uma virada bem sucedida economicamente (venderam pra caramba) quanto artisticamente (ganharam respeito pela coragem e ousadia).
Vamos ao U2. Os álbuns imediatamente anteriores, "Joshua Tree" e "Rattle and Hum", venderam muito, tiveram muitas músicas tocadas ad nauseum. Ou seja, uma banda alçada a condição de grande. Poderiam lançar mais do mesmo e colher os frutos até a fórmula se esgotar. Mas não: viraram totalmente, modernizaram o som, botaram batidas dançantes. O "messias do rock", como Bono era chamado inclusive pela imprensa(?) zombou de si mesmo, se maquiou, assumiu outras personas (The Fly, Mr MacFisto, Mirror Ball Man) e foi à luta. Ninguém entendeu, os fãs xiitas ficaram com raiva... e o U2 nunca mais foi o mesmo. A tour Zoo TV mudou o conceito de shows. Palco móvel, telões de altíssima definição. Bono ligando para a Casa Branca durante os shows. Caracterizações, jogo de luz, maquiagem, tudo para o entretenimento. E o U2 passou ao status de banda mítica. Produziram discos bons, regulares, voltaram ao rock básico (no bom All That You Can Leave Behind), cruzaram o mundo com palcos gigantes... e ainda são e serão relevantes.
E o Metallica? Ícone maior do rock de garagem, thrash metal até a medula (Fade to Black a parte), bebedeiras, calças e camisas rasgadas e velhas, atitude punk. A banda mais íntegra do metal, a que se negava a fazer vídeos - e quando fizeram foi no quarto álbum, One, com a banda tocando. Essa mesma One e a tour do álbum "... And Justice for All" já tinham levado o Metallica para um patamar muito superior a qualquer outra banda similar. Mas quando veio a notícia que o produtor do Motley Crue, de nome "Bob Rock", havia sido recrutado para o quinto álbum da banda, ninguém entendeu nada. E quando saíam notícias da gravação, parecia um disco do Emerson, Lake and Palmer, ou do Pink Floyd. Quase um ano no estúdio. Oito meses até achar o som ideal da bateria. Guitarras gravadas em camadas, várias. Baladas, no plural. Canções mais curtas, mais refrões. E então veio Enter Sandman. Maravilhosa, mas diferente de tudo o que fora feito antes. Curta, com imenso apelo comercial, um riff absolutamente incrível - mas nada de thrash metal. O Metallica renegou sua origem? Cuspiu no prato em que comeu? Baladas (lindas, as 02), lados b orquestrados, cover do Queen (a foderosa Stone Cold Crazy). E eles gravaram um clip com um diretor badalado. E outro. E outro. Foram indicados ao Grammy. E entraram pra história. Enter Sandman ainda é presença obrigatória nos shows - e berrada por gerações de fãs, nos shows, em festas ou bares. Seus lançamentos ainda recebem aquele "parem as máquinas".
Algumas bandas perderam oportunidades de atingir este nível e estagnaram (o Iron Maiden é o primeiro exemplo que me vem). Outras atingiram patamar similar justamente por manterem-se fiéis (veja o AC/DC). Mas isso é uma outra conversa, que fica para outro dia.

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Sábado, 27 de Junho de 2009

Hendrix

Sábado, chuva. Sem post, só Hendrix.














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Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Eça

Lendo "A Relíquia", deliciosamente difícil. Muito bom, muito bom. Prosa fantástica, flui bem - te deixa com vontade de continuar lendo (o que me deixa desesperado, porque não consegui mais de 02 páginas de uma vez ainda). Enfim, consegui meu exemplar numa feira de trocas aqui na escola, bem interessante. Mas o comentário do meu tio sobre uma característica literaria do Eça de Queiroz, no almoço de domingo, vale o registro: "É uma leitura que enriquece o vocabulário, porque ele tem o hábito de adjetivar substantivos".
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"Depois do café, o meu sapientíssimo amigo, com o lápis dos apontamentos na algibeira da rabona, abalou a rebuscar antigualhas e pedras do tempo dos Ptolomeus..."

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Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Minnie the Moocher

Sábado de manhã, dia de pagar contas. Estacionamos em frente ao terminal 24 horas do banco, Sefir desce do carro, entra na agência. Aproveito para aumentar (muito) o volume do carro. Sefir volta rindo, pergunto por quê. Ela diz que ouviu a música, mas não imaginou que o som viesse do nosso carro. E um casal entrou falando da música, que tinha visto no filme (The Blues Brothers, 1980 - fantástico!) e que era legal, além de inusitado, escutar aquela música em SJC num sábado de manhã. Pois é, amigo. A gente que gosta de umas coisas diferentes sempre acha que está só no mundo. Não sei quem são essas pessoas, mas dedico o post (e o vídeo abaixo) a esse casal. E, claro, a Cab Calloway, que a canta com paixão.

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Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Economia Subterrânea (ou: "como?")

"Não sou um especialista em Brasil, mas qualquer país cuja economia subterrânea seja significativa precisa repensar a forma como tem conduzido suas políticas públicas. Excesso de regulamentações, altos impostos, burocracia e corrupção estimulam a economia clandestina e, por isso, precisam ser combatidos. Além disso, é preciso prestar mais atenção ao comportamento ético, pois este pode ser o caminho para resolver boa parte dos conflitos e dilemas que alimentam a economia subterrânea."
VITO TANZI, economista italiano, consultor sênior do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento)
Retirado da REVISTA ETCO - Abril 2008, n. 9 - ano 5.
Precisa ter esse currículo para 400 talheres pra chegar nesta conclusão óbvia? Mas há questões, creio, mais importantes: uma delas é COMO transformar este "comportamento ético" em norma aceitável e desejável pelo conjunto de cidadãos - como referência a ser seguida mesmo. A outra, tão importante quanto, é como garantir que os desvios deste comportamento ético sejam detectados e punidos, de acordo com a lei, com os princípios de um Estado Democrático e de Direito (uma definição bem direta aqui; reflexões interessantes sobre o tema aqui e na parte 1 deste trabalho). De todas as respostas que começo a pinçar na cabeça, a frase "maior participação política de todos" é o elemento comum. Como? Mais e melhor educação, o que desemboca em outro problema: Como convencer as pessoas que o estudo e a qualificação são pré requisitos para o debate e, consequentemente, para a solução dos problemas (isso tudo sem cair no idealismo barato)? Como?

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Domingo, 21 de Junho de 2009

Pula a fogueira, iá iá

Festa Junina, sábado agora. Impressões:

- Ser pai é ser praticamente um Highlander: abaixar, ter que lidar com máquinas que não disparam quando você precisa (quem foi o sonofabitch que inventou máquina digital com DOIS flashes?), mães insanas querendo tirar foto ao mesmo tempo, poeira do cacete, música ruim, palpite de todo mundo que acha que faz melhor que você... e ainda fazer tudo isso ABAIXADO! Ai, meus joelhos!

- Muita comida e bebida. Vinho quente (pra cacete), bolinho caipira (iguaria vale paraibana, fantástico!), pipoca, pastel, caldinhos e afins. Mas enche rápido - e olha que Rover é um especialista na arte de comer... muito.

- E com esse papo de "comprar fichinha", o dinheiro vai que você nem vê: quando cai na real, gastou 30 paus!

- Me deter um pouco na questão da música. Gostar de rock and roll é carregar um fardo: tudo que não é rock and roll as pessoas acham que vc odeia - e fazem questão de lembrar isso a cada rima mal feita cantada em dupla q vc escuta. ISSO é mais chato que "pega foooogo o cabaré", entre outras coisas ouvidas. Confesso que já tive meus radicalismos, tudo bem. Mas eu tinha DEZOITO anos, por aí. Hoje, ainda mais depois de ter arrumado a casa ouvindo som alto o dia todo, estava de boa (ou como brinquei com minha irmã, "vacinado", haha). Confesso que até curti algumas coisas (no sentido de achar engraçado mesmo, pq engraçado é). Mas o lance era a festa das minhas filhas, curtir, brincar, beber e comer. É aquela história: a música que EU escolho, eu escuto na minha casa, no meu carro ou com meus amigos. Quando não tenho essa prerrogativa, é let it be. Na boa. Agora, O CONTRÁRIO não acontece. Quem não escuta rock, ou blues, ou jazz, ou simplesmente quem não liga muito para o que sai do alto falante, não tolera a diferença. Experimenta passar um dia inteiro, num churrasco, ouvindo esse neo-sertanejo, ou esse reggae / forró universitário, e então tenta colocar uma sequência de rocks que não seja padrão FM. Você é execrado - já passei por isso "n" vezes. Então quem não é tolerante, my friend? E eu falo isso sem querer pagar de dono da verdade ou por rancor de algo. É observação pura mesmo. Mas que seja cada um na sua.

- E eu passaria por tudo de novo pra ver cada risada das minhas meninas. Dançaria quadrilha dos casais de novo, só pra ver Sefir feliz.

- E como tudo acaba bem, agora tocando Master of Puppets no som do quarto. Hora de acabar o post.

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Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Siga aquele carro

E eis que Rover se rende ao Twitter. Follow me, friends!

http://twitter.com/rodrigorover

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Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

I'm an IRON MAN!

Com o meu tradicional delay com o cinema, assisti o Homem de Ferro domingo agora (14/06). Muito legal! Entretenimento no talo, sem cabecismos nem besteiras similares. É pra sentar em frente a tela e curtir. E confirmar: Robert Downey Jr. está fantástico, Gwyneth Paltrow está ok, Jeff Bridges muito bem (só associei "o nome à pessoa" nos créditos!), o roteiro não desliza. A cena final, onde Starks titubeia mas acaba confessando ser o Homem de Ferro é daquelas antológicas pelo cinismo e pelo arroubo de vaidade. Bem legal! E o nome, associado do clássico do Sabbath, néam? Então achei este videozinho que junta os 02: o filme e o Black Sabbath. Cheers!
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E, claro, a versão original (vá lá, a versão ao vivo) desta maravilha. Ladies and gentlemen: Mr Tony Iommi, Mr Geezer Bluter, Mr Bill Ward, Mr Ozzy Osbourne: the fucking BLACK SABBATH!!!



E parabéns pra Dona Carol, ontem, hoje e sempre um grande amor!

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Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Teoria da Lírica: Ninguém = Ninguém

Tenho (tive) uma birra histórica com os Engenheiros do Hawaii. Gostei muito (basicamente até o Gessinger, Licks & Maltz, de 93, com altos e baixos no caminho), depois passei a não gostar com força - até me ligar que não gostava mais por comodismo (é muito chato ter que defender um ponto de vista toda vez que vc o expõe) do que por questões pessoais mesmo. E revi muita coisa que acabei perdendo; passei a gostar sem problemas, ou sem me importar se seria achincalhado ou não (basicamente passei pela mesma coisa com a Legião Urbana, mas isso fica pra outro post). E vi que achava certas coisas cretinas por ser EU o cretino, não a banda. Exemplo: esta música que posto agora. Quando ele falava que todos eram iguais, mas uns eram mais iguais que os outros, "Revolução dos Bichos" era mais um nome de um musical da Globo do que literatura. George Orwell era o de 1984, aquele que falava do "Grande Irmão", etc, etc. Logo, quando li o livro, a letra fez um sentido tremendo - embora ainda fosse resistente a banda. E a postura "tô cagando pra isso" do Humberto Gessinger me fez MESMO dar mais valor. Porque era muito fácil o cara ter virado figurinha carimbada mainstream. Em vez disso continua escrevendo suas músicas. Goste-se ou não, não tem como negar: O (grupo) Engenheiros do Hawaii, e o Humberto Gessinger em particular, são dos artistas mais nem aí do rock nacional. Livre pra lançar disco quando quiser, livre pra abrir concessão e gravar um Acústico MTV - do jeito que quiser, com o repertório que quiser. E é isso. Vamos à música, então.

Ninguém = Ninguém
Engenheiros do Hawaii
Composição: Humberto Gessinger

Há tantos quadros na parede
Há tantas formas de se ver o mesmo quadro
Ou seja: tem pra todo mundo. Tantos quadros para serem vistos, de tantas formas possíveis...

Há tanta gente pelas ruas
Há tantas ruas e nenhuma é igual a outra
Cada rua, cada bairro, cada "quebrada" com aquilo que tem de bom e ruim - que é o que, no fim das contas, a torna única. Então não faz sentido discutir qual, quem, o quê ou onde é melhor: "nenhuma rua é igual a outra" - depende de como você está, pra ser bom ou ruim.

Ninguém = ninguém
Me encanta que tanta gente sinta
(se é que sente) a mesma indiferença
A indiferença perturba, incomoda. A indiferença é tão marcante que Gessinger ainda reforça, semanticamente e foneticamente com a aliteração SINta (SE é que SENte). Afinal, já que é indiferença, provavelmente as pessoas nem sintam mesmo.

Há tantos quadros na parede
Há tantas formas de se ver o mesmo quadro
Há palavras que nunca são ditas
Há muitas vozes repetindo a mesma frase:
Será que há palavras que nunca são ditas por haverem muitas vozes repetindo sempre a mesma frase?

Ninguém = ninguém
Me espanta que tanta gente minta
(descaradamente) a mesma mentira
Mesma jogada do quadro anterior. Aqui a ênfase se dá através de MINta descaradaMENte a MEsma MENtira. Não há pudor em mentir. O cenário narrado é triste: as pessoas são indiferentes e mentirosas: se escondem na diferença, pois "ninguém = ninguém"...

São todos iguais
E tão desiguais
uns mais iguais que os outros
Além da citação (fantástica, no contexto) de Orwell, as palavras formam como um jogo de espelhos: São iguais, porém desiguais - porque no fim das contas uns são MAIS iguais que os outros. Se uns são mais, outros são MENOS iguais - ou mais diferentes. Privilégio? Superioridade? O que é ser "diferente" num mundo onde a indiferença e a mentira reinam? Eles são exceção ou causa deste mundo podre?

Há pouca água e muita sede
Uma represa, um apartheid
O fato de haver POUCA água e MUITA sede (o contraste que reforça as imagens) é realçado pelo jogo de imagens: tanto a represa quanto o apartheid servem para SEPARAR - água ou pessoas.

(a vida seca, os olhos úmidos)
E já que se fala da represa, nada como citar o romance de Graciliano Ramos (Vidas Secas) como fonte de tristeza, que umedece os olhos - o que umedece os olhos numa vida seca, a não ser as lágrimas de tristeza? Tristeza esta EXATAMENTE por viver essa vida seca - de sentido, de alimento e de esperança. Este mundo indiferente e mentiroso produz este tipo de coisa.

Entre duas pessoas
Entre quatro paredes
Tudo fica claro
Ninguém fica indiferente
"Entre duas pessoas" e "entre quatro paredes" indicam situações que nos envolvem diretamente. E este é o único caso onde "ninguém fica indiferente". O que se pode inferir: as pessoas só se sensibilizam quando o problema é com elas. Ou seja: sentem "indiferença", "mentem descaradamente" - mas não ficam indiferentes "entre duas pessoas" ou "entre quatro paredes". Aí "tudo fica claro".

Ninguém = ninguém
Me assusta que justamente agora
Todo mundo (tanta gente)
tenha ido embora
"justamente agora", quando o autor chega a ponto de cantar o egoísmo das pessoas em alto e bom som, de esfregar na cara das pessoas essa crise de valores... "todo mundo (tanta gente)" foi embora!

(...)
O que me encanta é que tanta gente
Sinta (se é que sente) ou
Minta (desesperadamente)
Da mesma forma
É realmente encantador que um grande número de pessoas caia nesta armadilha de hipocrisia e egoísmo, e se negue a encarar os fatos - "da mesma forma", condicionados que são a viver sem questionar. E quando confrontados, "vão embora". Como o menino que leva a bola embora por não ter sido escolhido para o time principal.

O engraçado é que a letra começa com uma abordagem e viaja para outra bem diferente. Se é proposital ou não, não sei dizer - não a escrevi. Claro, uma análise é, antes de tudo, uma opinião - ou ainda: uma interpretação. O próprio autor pode negar cada palavra do que disse aqui, ainda que isso provavelmente não altere nada do que escrevi. And that's all, folks.

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Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

O Ateneu - Raul Pompéia

Meu primeiro interesse pelo "Ateneu" veio nas aulas de Latim, na faculdade. Falando da influência e dos usos da língua latina atualmente, o professor falava da grande sacada do Raul Pompéia (autor do livro) em batizar o diretor e dono do colégio como Aristarco (de "aristocracia", "aristocrata"). No dia seguinte a esta aula, fui num sebo e achei "O Ateneu" (e Amor de Perdição, do Camilo Castelo Branco) por míseros 5 Reais - não resisti e comprei.
Fui lê-lo realmente agora, em 2009; na verdade, acabei de lê-lo, daí a resenha. Adianto: não é um livro fácil, no que concerne a escolhas lexicais. Mas é estiloso, é saboroso, pra quem gosta da língua portuguesa. Esse livro é citado como um dos grandes títulos do movimento naturalista na literatura brasileira (ao lado de O Mulato, de Aluísio Azevedo), o que pode ser que pode ser percebido se verificarmos a constante influência do ambiente do Ateneu no caráter das personagens. Pode-se dizer até que o meio, a escola, é também uma personagem da história, característica fundamental do naturalismo. Outro indicativo desta influência é a citação do italiano Emile Zola, um dos principais nomes desta corrente literária. O Ateneu, seus cenários, turmas, rituais e acontecimentos realmente apresenta forte influência sobre as personagens. Sérgio, a principal e alter ego de Raul Pompéia (que viveu realmente 06 anos em um internato) no livro, passa por comportamentos, sentimentos e atitudes paradoxais e as vezes até contraditórias, devido ao ambiente do colégio.
Mas não é só isso. O livro apresenta influências:
- Realistas: na negação do ideal romântico de que a infância é uma época de inocência e felicidade plenas, ou mesmo na adoção do nome Ema para a esposa de Aristarco, influência do marco Realista Madame Bovary, de Gustave Flaubert (já resenhado neste blog), cuja personagem principal chama-se Emba Bovary (a tal madame do título);
- Impressionistas: quando o autor usa sentimentos, descrições subjetivas para descrever suas impressões, especialmente após o contato com D. Ema no jantar em que Sérgio fora convidado após obter boas notas no período;
- Expressionista: ao abusar de imagens grotescas nas descrições, quando por exemplo relata a "repugnância de gosma" que o autor sentiu por Franco.
O foco narrativo é em primeira pessoa: o livro todo é narrado por Sérgio, protagonista das crônicas, aluno do Ateneu por 02 anos (entrando lá com 11), o que, confrontando com a biografia do autor, deixa claro que é um romance com fortes tons autobiográficos - deixando triste aquela corrente da crítica que diz ser irrelevante a associação da vida do autor com sua obra. Normalmente discordo dela, mas neste caso em particular a discordância é radical, por fatores que listaremos ainda. Mas voltando ao livro, as personagens são planas, superficiais, com características bem definidas: não há intensidade ou conflito das personalidades. As influências decorrem, como já citado, do meio, do ambiente. Não há grandes alterações emocionais durante o romance.
No quesito relação autor-obra, é sabido que Raul Pompéia era um republicano entusiasta. A crítica impiedosa ao déspota Aristarco, retratado como um empresário frio e financista na pele de um grande e incensado educador, somada à frase do professor Cláudio no capítulo XI ("não é o internato que faz a sociedade, o internato a reflete") dá a senha: o internato é um microcosmo da sociedade da época: monarquista, imperial. Sendo governado por um autoridade suprema, abre espaço para relações atrofiadas, perversas, egoísmo, hipocrisia e imposição pelo medo. Este microcosmo terminar em chamas não é surpresa: quem não gostaria que aquela fonte de memórias desagradáveis literalmente ardesse em chamas? Qual republicano não gostaria de ver a monarquia arder em chamas, ainda que de forma metafórica? Uma passagem do final simboliza a queda do poder aristocrático: o outrora honorável e poderoso Aristarco em meio ao colégio em chamas, abandonado por todos, inclusive pela esposa, que some em meio a confusão.
Outras belas sacadas como a relação meio edipiana da esposa do diretor, D. Ema, com Sérgio, após a doença deste. O fato de "Ema" ser um possível anagrama para "mãe" e "ame", além da já citada relação com Ema Bovary, alternando tintas edipianas com interessante carga de sensualidade, erotismo mesmo. O aluno religioso se chamar Franco. O aluno mais velho, que se rebela silenciosamente contra aquilo tudo, ser o Rebelo - que não se rebela totalmente por ter a acuidade visual comprometida, daí os imensos óculos de lentes azuis, o que não lhe permite "ver" tudo adequadamente. O aluno que se torna herói para depois se tornar o protetor de Sérgio se chamar Bento, de "abençoado". O agitador Barbalho (além da sonoridade larga, a rima com paspalho ou outras palavras menos votadas), o respitado professor Mânlio, com nome emprestado de Anício Mânlio Torquato Severino Boécio, estadista e filósofo da patrística de transição para a Escolástica (nascido por volta de 470 dC, morto em 524 dC), entre outros. E, lat but not the least, um momento "a vida imita a arte": a citação sem fim de grandes nomes da história, mitos, imperadores e divindades não é puro exibicionismo acadêmico - Raul Pompéia foi, além de jornalista (notável polemista) e escritor, professor de História da Arte. Na mais notória das inúmeras polêmicas em que se envolveu, quase chega as vias de fato com Olavo Bilac, outro gigante da literatura brasileira. Considerado de personalidade fechada e difícil, suicidou-se em 25 de Dezembro de 1895 (nascido em abril de 1863, morreu com 32 anos! Publicou "O Ateneu" em 1888, com 25 anos!).
Enfim: livro difícil, mas ainda assim um grande livro. Leitura obrigatória para a área de Letras. Leitura obrigatória para apreciadores de refinamento lexical. Agora, se o objetivo é leitura por prazer, passe longe - ciente de que está correndo de um desafio que, no frigir dos ovos, lhe trará mais benefícios do que tédio.

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Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

Sinal de vida

- Doutor Gallagher, o paciente do 2001 está dando sinais de reação.
- Impossível, enfermeira Harvey! Este blog está em coma profundo desde janeiro!
- Eu sei, doutor. Mas parece que tem até post novo...
- Ora bolas! Eu já estava vendendo os posts antigos no mercado negro!

...And SELETA DE PROSA has born again!

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Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

Putaqueopariu

Olha que diliça! Dá vontade de abrir uma cerveja e só acompanhar batendo o pé... (ou de subir no palco e tocar junto). Grande homenagem, grande John Lee Hooker!



O grupo se chama Blue Riders. Mais detalhes qualquer hora dessas. Enjoy - and cheers!

PS: Viram como eu sei colocar vídeo "embed"? Só não dá quando o link do You Tube quebra, queridos...

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Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

Feliz 2009 pra todos nós!

Não consigo postar vídeos do You Tube aqui, catso! Então, 02 links:

Rockin' in free world (Neil Young e Pearl Jam, 1993)

Sossego (Tim Maia, 1989)

E vamo que vamo!

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Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

Um Curta Experimental, Cult e Pseudo-Intelectual

Isso é simplesmente sensacional... meu primeiro post como "professor em línguas portuguesa e inglesa" tinha que ter uma ironia contra a intelectuália... chck this out.

Adendo: não consigo postar o vídeo, então clica aqui.

"Eu sei, EU SEI, isso tira parte da expressao dicotomica e do neo impressionismo do seu curta", hohoho...

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Terça-feira, 11 de Novembro de 2008

Ema, Carlos, Nasi, Pitty

Li Madame Bovary, muito interessante. Quem me depertou pra Gustav Flaubert foi Nelson Rodrigues. No seu "A Sombra das Chuteiras Imortais" tem uma crônica, "Fluminense tão Flaubert". A crônica fala de um jogo em que o Fluminense venceu quando passou a jogar com mais gana e de forma mais simples. Nelson então fala que enquanto o tricolor carioca jogou preocupado com estilo, plasticidade, o placar ficara em branco. E comparava essa atuação a escrita de Flaubert, também cheia de estilo, cuidado e zelo na adjetivação, escolhas lexicais primorosas (e tem gente que não acha Nelson Rodrigues genial): em resumo, quando fez o básico, a equipe pó de arroz venceu. Mas enfim, voltemos: li Madame Bovary.
Nos livros e apostilas a referência que você mais lê é "romance precurssor do realismo francês, com grande impacto na literatura brasileira" (ou do realismo, depende da fonte). Ao ponto então.
Mais que um livro realista, Madame Bovary é uma negação do romantismo. Ou ainda, a saga trágica de Ema Bovary (e também a de Carlos Bovary) é fruto da crença cega no ideário romântico. A bela mulher à espera do príncipe encantado, do amor eternamente passional e rotineiramente inesperado. Carlos, um dos mais célebres cornos da literatura, não fica atrás. O amor absolutamente eterno pela esposa. As constantes tentativas de conquista. Os carinhos excessivos de final feliz tipicamente romanesco. O melancólico e lento desaparecimento através da negação da própria vida quando viúvo. A crença cega no amor (ou a procura por ele, também cabe), com sua desilusão que nada tem de sonho e muito tem de real (e aí sim o nome Realismo se justifica) levou à ruína o casal Bovary.
A questão da adjetivação, do padrão lexical... bem, não li a versão original em francês. Mas a tradução de 1970, da Abril Cultural, revela um esmero admirável. Um trabalho primoroso de Araújo Nabuco - aliás, tradutor é uma raça injustiçada: tem que criar, a partir de um universo já irremediavelmente pronto, toda uma linguagem que ao menos tente transmitir o ideário do autor. E, no entanto, veja você: com um trabalho brilhante como este, não achei um link que fale sobre ele. Mas não quero sair muito do ponto: É um texto realmente carregado, estiloso, mas com uma classe contundente. Frases bem encadeadas... delícia. Mas não pra qualquer um, claro.
Mas e o Ira! e a Pitty? Bem, no dia em que acabei de ler (na sempre-atualizada) voltávamos da faculdade de van, quando o cd do carro tocou essa música, do Acústico do Ira!. Ouvindo o Nasi e a Pitty cantarem aquela letra a associação com Carlos e Ema foi imediata. Quem leu o livro ou conhece a história, me diga: essa letra não foi feita pra Ema Bovary? Ou ainda: não poderia, perfeitamente, ser cantada por ela?

Eu quero sempre mais
Edgar Scandurra

A minha vida
Eu preciso mudar
Todo dia
Prá escapar
Da rotina
Dos meus desejos
Por seus beijos...

E os meus sonhos
Eu procuro acordar
E perseguir meus sonhos..

Mas a realidade
Que vem depois
Não é bem aquela
Que planejei...

Eu quero sempre mais!
Eu quero sempre mais!
Eu espero sempre mais!
De ti!...

Por isso hoje
Estou tão triste
Por que querer está
Tão longe de poder?...

E quem eu quero
Está tão longe
Longe de mim...

Longe de mim!
Longe de mim!
Longe de mim!...

(Longe de mim!)
(Longe de mim!)...

IRA! - Eu Quero Sempre Mais


É brega? É pop? Hey, that's me!

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Sexta-feira, 31 de Outubro de 2008

So it's Halloween (com tradução)

Então o halloween também é celebrado no Brasil?

Eu sempre, nos meus sonhos adolescente-rebelde em ter uma banda (ainda não descartados at all, hehe - o sonho, não a adolescência), imaginava fazer uma versão dessa música dos Dead Kennedys trocando o "halloween" por "carnaval", pra nego aqui entender e a porrada ser mais certeira. Mas como agora o halloween é celebrado nas escolas (na das minhas filhas, de educação infantil, à universidade-paulista-que-é-sempre-atualizada), nem preciso me dar esse trabalho. Assim sendo, toma:

Halloween
By Dead Kennedys

So it's Halloween
And you feel like dancin'
And you feel like shinin'
And you feel like letting loose

Whatcha gonna be
Babe, you better know
And you better plan
Better plan all day

Better plan all week
Better plan all month
Better plan all year

You're dressed up like a clown
Putting on your act
It's the only time all year
You'll ever admit that

I can see your eyes
I can see your brain
Baby, nothing's changed
(repeat)

You're still hiding in a mask
You take your fun seriously
No, don't blow this year's chance
Tomorrow your mold goes back on

After Halloween

You go to work today
You'll go to work tomorrow
Shitfaced tonight
You'll brag about it for months

Remember what I did
Remember what I was
Back on Halloween

But what's in between
Where are your ideas
You sit around and dream
For next Halloween

Why not everyday
Are you so afraid
What will people say
(repeat)

After Halloween

Because your role is planned for you
There's nothing you can do
But stop and think it through
But what will the boss say to you
And what will your girlfriend say to you
And the people out on the street they might glare at you
And whadya know you're pretty self-conscious too

So you run back and stuff yourselves in rigid business costumes
Only at night to score is your leather uniform exhumed
Why don't you take your social regulations
And shove 'em up your ass
Why don't you take your social regulations
And shove 'em up your ass

Halloween
Dead Kennedys

Então é halloween!
E você sente como se dançasse
E você sente como se brilhasse
E você se sente soltando a franga

O que vai ser
Querida, você sabe melhor
Você planeja melhor
Planeja melhor todo dia

Planeja melhor toda a semana
Planeja melhor todos os meses
Planeja melhor todo o ano

Você está vestido como um palhaço
Acreditando em seu teatro
É o único momento em todo o ano
Em que você admite isso

Posso ver os seus olhos
Eu posso ver o teu cérebro
Baby, nada mudou
(repetir)

Você ainda está escondido em uma máscara
Você toma a sério o seu divertimento
Não, não deixe passar a chance este ano
Amanhã seu modelo volta

Depois do Haloween!

Você vai trabalhar hoje
Você vai trabalhar amanhã
Cara de merda essa noite
Você vai falar disso por meses

Lembrar o que eu fiz
Lembrar o que eu era
Lá no Halloween

Mas o que está em entre isso tudo?
Onde estão suas idéias
Você fica sentado e sonha
Com o próximo Halloween

Porque não todos os dias
Você está com tanto medo
Do que as pessoas vão dizer
(repetir)

Depois do Halloween

Porque o seu papel é planejado para você
Não há nada que você possa fazer
Mas pare e pense bem
Mas o que será o chefe disse para você
E o que sua namorada vai dizer a você
E as pessoas na rua, elas vão te encarar
Mas qual é, eu sei que você também é muito cheio de escrúpulos

Então você volta atrás e se aperta em rígidos costumes corporativos
Só à noite pra ganhar, é o seu uniforme de couro exumado
Por que você não pega a sua regulamentação social
E as enfia no rabo?
Por que você não pega a sua regulamentação social
E as enfia no rabo?

Jello Biafra rocks, haha!

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Terça-feira, 28 de Outubro de 2008

Rascunhos de Letras: Teoria da Lírica (REPUBLICADO)

Eis um post de que gosto muito. Adoro Barão Vermelho, adoro Cazuza e Teoria da Lírica foi uma das matérias que mais gostei na faculdade. Nos comentários do post o Guilherme sugeriu colocar a música mas, como não achei na época, ficou por isso mesmo. Dia desses, dando um rolê no mp3tube, achei - e resolvi colocá-la aqui, republicando o post. I hope you like it.

-x-

Cazuza e barão Vermelho - Eu queria ter uma bomba
Barão Vermelho
Eu queria ter uma bomba
(Cazuza / Frejat)
Solidão a dois de dia
Faz calor, depois faz frio
Você diz "já foi" e eu concordo contigo
Você sai de perto eu penso em suicídio
Mas no fundo eu nem ligo

Você sempre volta com as mesmas notícias
Eu queria ter uma bomba
Um flit paralisante qualquer
Pra poder me livrar
Do prático efeito
Das tuas frases feitas
Das tuas noites perfeitas

Solidão a dois de dia
Faz calor, depois faz frio
Você diz "já foi" e eu concordo contigo
Você sai de perto eu penso em homicídio
Mas no fundo eu nem ligo

Você sempre volta com as mesmas notícias
Eu queria ter uma bomba
Um flit paralisante qualquer
Pra poder te negar
Bem no último instante

Meu mundo que você não vê
Meu sonho que você não crê

Eu queria ter uma bomba
Um flit paralisante qualquer
Pra poder te negar
Bem no último instante

=x=

Solidão a dois de dia
Faz calor, depois faz frio
"Solidão a dois": já não há nada que os una. Juntos, estão sós. No princípio a paixão, normalmente associado a um "fogo" interno, fala mais alto (faz calor), mas depois você fica indiferente, frio. O poeta usa este jogo de palavras para expressar sentimentos opostos, paradoxais - conseqüentemente, de difícil explicação, confusos. É como se reclamasse, como se lamentasse: ora faz calor, ora esfria...

Você diz "já foi" e eu concordo contigo
Sexo foi uma constante na obra de Cazuza. O "já foi" é o gozo perdido, descompassado, e notamos que descompassado também no sentimento. Podemos associar, nesta hora, a passagem do "quente" pro "frio". Era bom, mas "já foi". Gozávamos juntos, mas agora "vc diz: já foi". E o poeta concorda.

Você sai de perto eu penso em suicídio, mas no fundo eu nem ligo
Cazuza recorre ao paradoxo novamente: ele chega a pensar em se matar, ainda que "nem ligue" - outro indício de quão confuso está. Leitura possível: não é um sentimento profundo. É superficial, mas, ao aventar até o suicídio, mostra-se forte, passional. Animalesco, essencialmente sexual.

Você sempre volta com as mesmas notícias
Ou é ele quem está de saco cheio dela?

Eu queria ter uma bomba
Um flit paralisante qualquer
Pra poder me livrar
Do prático efeito
Das tuas frases feitas
Das tuas noites perfeitas
Aqui o poeta é refém como de um encanto, de um feitiço. Por mais que racionalmente ele queira se livrar do prático efeito de frases feitas e noites perfeitas, Cazuza não consegue, a ponto de recorrer à bombas ou flitis paralisantes. O que nos leva a reforçar a crença em uma paixão sexual, apresentando assim o dilema central: a companhia não agrada, mas me proporciona noites plenas de satisfação. Na sonoridade, a colocação de palavras como "PRA, liVRAR, PRÁtico e FRAses" ajudam a passar a impressão de insatisfação, de indignação da vítima do encanto.

E na segunda parte, outro aspecto que leva ao paradoxo: do suicídio do primeiro verso ao homicídio:
Você sai de perto eu penso em homicídio, mas no fundo eu nem ligo

Meu mundo que você não vê
Meu sonho que você não crê
Eis a revelação das razões que o levaram ao desencanto: o poeta não enxerga na atual companhia uma verdadeira companheira; não enxerga a possibilidade de dividirem um "mundo" e um "sonho"; deduzimos, então, que a pessoa é, com suas "frases feitas", alguém talvez egoísta?
JustificarAlienada? Ou simplesmente não sente com a intensidade demonstrada até aqui - indiferente, portanto? Nova leitura se abre: o poeta abriu mão do ser amado ou usa os versos para se lamentar daquela que não partilhava sonhos e mundos? Ainda: ele reclama que ela "sempre volta com as mesmas notícias". Será que ela não pensa o mesmo dele? Daí um não enxergar o mundo do outro, não crer no mundo do outro?

E, como isso é uma letra de música e não um poema, vale destacar o final:
Eu queria ter uma bomba
Um flit paralisante qualquer
Pra poder te negar
Bem no último instante
Interessante é que a parte instrumental da música acaba exatamente quando Cazuza pronuncia a tônica "úl", em "ÚLtimo instante", como se realizasse o desejo expresso pelas palavras. E como sabemos que é de sexo que ele fala, temos realçada a imagem do recado dado, que há sim uma bomba eficaz. O poeta logrou êxito: de uma forma alegórica, conseguiu o intento de negar "bem no último instante". No caso, música às palavras. E riu por último.

Um clássico absoluto do rock brasileiro.

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