quinta-feira, 19 de junho de 2008

Literatura britânica

Decepções acontecem. Sempre citei como sendo de Machado de Assis a frase "O menino é o pai do homem". Acho-a profunda e, quase sempre (quando a cito), reconfortante. Pois não é que descobri que a frase não é de Machado? É um (vamos lá, Bakthin) intertexto.

"
THE CHILD IS THE FATHER OF MAN"

É da lavra de
William Wordsworth, poeta inglês - na verdade, de um poema chamado "My Heart Leaps Up When I Behold". Autor do "Prefácio às baladas líricas", baladas estas escritas com Samuel Taylor Coleridge (que na verdade contribuiu apenas com "Rime of the ancient mariner" - ei, alguém já ouviu falar disso antes? Clica aqui e aqui pra sacar o som com o poema através de gravuras - seriam de Gustav Dore? *), este tema é considerado o "manifesto" do romantismo inglês. Influenciado pela Revolução Francesa, que depois refutou ao ver o que os populares fizeram quando chegaram ao poder (num período que ficou conhecido como "O Terror"). Influenciado mais ainda pela idéia do "bom selvagem", de Rousseau, fato que pode ser notado pela preferência que ele tem em narrar fatos rurais, paisagens bucólicas. Por ser o poeta da gente simples do interior da Inglaterra, acabou tendo grande prestígio popular, apesar de sua linguagem refinada, embora com forte acento emocional (aspecto notável na poesia romântica).

* Não, não são do Gustav Dore. Aqui você tem o poema declamado pelo Nick Gisburne, com gravuras dele. 27 minutos? Creia-me, vale a viagem - if you speak English, of course... Ou aqui, o poema, as gravuras e a música de Gustav Hoyer. Belíssimo...

-x-

Guga, me perdoe. Mas se eu fosse postar sobre o tri em Roland Garros e ainda sobre o Masters de 2000, em Lisboa, eu ia só falar de ti até o fim do ano. Fico devendo essa, manezinho (embora, honestamente, creio que ninguém ligue mesmo, hoho).

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sexta-feira, 30 de maio de 2008

Guga, Paris 2000

(25 invernos depois) E então veio 2000. Passados Roland Garros de 98 e 99, muitos imaginavam que era mais um sortudo que, numa dessas que acontecem a cada 1000 anos, teve seu grande momento. Eu já acompanhava de perto, do modo como era possível, e via que não era bem assim: alguns bons títulos em Master Series (torneios que só perdem em importância para os Grand Slam) e performances razoáveis.
O ano de 2000 começara bem pra Guga: títulos em Indianápolis e Hamburgo, finais em Roma e Miami. E começa o Aberto da França, o torneio que eu sentia que seria a consagração definitiva.
De cara, duas tranquilas vitórias por 3x0, contra o sueco Vinciguerra e o argentino Charpentier. Guga então pegaria o norte americano Michael Chang, notório eliminador de favoritos em grandes torneios, mas de carreira apenas regular: 3x1 Guga, e a próxima partida contra um grande amigo, o equatoriano Nicolas Lapentti - outro 3x0 sem problemas, exceto pelo tie-break no terceiro set, coisa corriqueira na carreira de Kuerten. E aí veio a pedreira: Yevgeny Kafelnikov, e a possível vingança da eliminação de 97. Kafelna vivia seu auge, e era um dos grande favoritos (tanto é que foi medalha de ouro em Sydney 2000, eliminando inclusive Gustavo Kuerten). Guga venceu o primeiro set mas estava irregular demais. Pra quem conhecia seu jogo, um dado alarmante: seu primeiro serviço, uma das suas armas mais potentes, não entrava. Kafelnikov ganhou os 02 sets seguintes sempre jogando melhor. "Já era", pensei. Aí entra aquele Kuerten que vai ficar marcado na minha cabeça pra sempre: aquele que salva bolas impossíveis. Aquele que descobre espaços onde não tem. Que vibra, que grita (e que geme muito!) a cada ponto. Aquele que desconcerta o adversário com jogadas imprevisíveis. Ganhou o quarto set por 6-4 mesmo não jogando muito bem. Diante de um Kafelna atônito, voltou pra fechar com um arrasador 6-2, marcando 3 sets a 2. Guga nas semifinais de Rolanga, de novo.
O duelo era contra o espanhol Jose Carlos Ferrero, o "mosquito". Ferrero jogava o fino, e tinha um estilo parecido com Guga: muito vigor físico, paciência e força. Um baita primeiro serviço. Mas, arrisco, nos três títulos, talvez seja um dos melhores jogos feitos por Guga, com os mesmos ingredientes da batalha contra Kafelnikov: Guga vence o primeiro set não jogando muito bem, perde os dois seguintes (perdeu o terceiro set por 6-2!) e volta voando pro quarto e quinto sets. Esse jogo contra Ferrero foi de altíssimo nível técnico porque, ao contrário do russo na rodada anterior, o espanhol manteve a pegada até o fim. Qualquer um dos 02 poderia sair vencedor, foi realmente um jogo épico. Daí você entende a idolatria dos franceses por Gustavo Kuerten: ele presenteou o público com um tênis de altíssimo nível, exibindo um carisma cativante e um sorriso idem, mesmo depois de 03 horas e tanto de jogo.
Duas batalhas de mais de 03 horas de duração, em cinco sets, com oscilações perigosas durante os jogos. Eis o Guga que jogaria a final contra Magnus Norman, um sueco que vinha voando e exibia, entre outras credenciais, o título do Aberto de Roma, último Master Series antes de Roland Garros (em cima de Kuerten!), o título em Auckland, Nova Zelândia, em quadra rápida, e a semifinal do Aberto da Austrália, o Grand Slam jogado em Janeiro. E ao contrário de Kuerten, a campanha de Norman foi tranquila, ele vinha exibindo um jogo mais regular. Como torcedor, claro, 02 sensações: o medo de que o cansaço colocaria tudo a perder e a certeza de que aquele tenista que jogou contra Kafelna e Ferrero não merecia perder. E não perderia.
Dois sets a zero, de cara: 6-2, 6-3. "Rá, já era! Outro show!". Terceiro set, Kuerten não vê a cor da bola: 6-2, aula de Norman. Primeiro serviço não entra, Guga não chega nas bolas. "Tá cansado e o Norman tá voando, ferrou!". Quarto set, Magnus Norman sempre na frente. "Meu Deus, não acredito que o cara vai mesmo virar!". Chegou, se a memória não me trai, a ter vários set points, em 5-4 e em 6-5, mas não fechou. Ou era uma passada milagrosa, ou um erro forçado do adversário, ou um ace. O fato é que Guga não se entregava. E veio o tie-break. Como se não tivesse passado por 02 batalhas antes, Guga acaba com o cara. 3 sets a 1, Gustavo Kuerten bi-campeão em Roland Garros. Era o máximo! Será que vinha mais? Vinha - MUITO mais.

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domingo, 25 de maio de 2008

Guga, Paris 97

Queridos, queridas, este post não fala de música. Não fala de literatura. Fala de esporte - mas não fala de futebol. Ou ainda: não é um post sobre esporte, mas sobre um ídolo. É estranho porque ele tem praticamente a minha idade. Aliás, é mais novo do que eu. Mas admiro Gustavo Kuerten desde 1997, aquele título inesquecível em Roland Garros. Então, no meio desse furacão de emoções que a despedida dele me proporcionou, alguns posts sobre o cara.
Eu sempre gostei de tênis. Um esporte que exige do corpo e da mente praticamente na mesma proporção: vc pode ter um físico sensacional, mas se não tiver controle mental, será um jogador medíocre. Por outro lado, de nada adianta ter o melhor preparo psicológico se você não tem condições físicas pra aguentar o jogo. Além disso, é um esporte individual, não há alguém pra culpar. É você contra outro oponente tão solitário quanto - besides duplas, claro. Dont mess with me!
Mas enfim... sempre gostei de tênis. Desde o ocaso de Jimmy Connors e John McEnroe, desde os tempos do gélido (e ótimo) Ivan Lendl e sua frustração por nunca ter vencido em Wimbledon, perdendo para Pat "who da hell are you?" Cash em 87. A era Sampras, com seus duelos e comerciais da Nike com Andre Agassi. Mats Wilander. Stefen Edberg. O tênis brasileiro: peguei o final da carreira do Kirmayr, sofri com Cássio Motta e Luis Mattar (que chegou a nº 29 no ranking mundial). E, acostumado a ver brasuca cair na primeira rodada em tudo quanto é Grand Slam, fiquei feliz quando aquele "Gustavo Kuerten" passou pra segunda rodada em 97. Mas ia pegar o Jonas Bjorkman, sueco que estava em grande fase. "Vai rodar", pensei. Ganhou, 3x1. Na sequência, Thomas Muster, que na época era um dos tenistas mais regulares do circuito. "Agora roda". Ganhou, 3x2, num puta jogo - vi um compacto, se não me engano, na extinta TV Manchete. E iria pegar Andrei Medvedev, ucraniano, um dos favoritos ao título. "Tá cansadaço do jogo com o Muster. E também já foi longe demais". Outro fantástico 3x2, e aí passei a acreditar em algo maior: o cara eliminara 02 tops jogando um tênis de gente grande. Trabalhava em horários loucos, estava de terceiro turno no dia da batalha contra o russo Kafelnikov, o "Kafelna", então emendei direto na frente da TV. Foi um dos jogos mais marcantes da minha vida, um show! Quando Kafelnikov virou pra 2 sets a 1, Guga voltando nervoso, pensei: já era. Foi bom enquanto durou - e, pro tênis brasuca àquela altura, era sensacional mesmo. Mas aquele magrelo cabeludo não me dá um "pneu" (6-0) num dos grandes tenistas do mundo naquela época? No quinto set, sem chance pro russo: 6-4, 3 sets a 2. Uma zebra belga na semi despachada com um 3 a 1 sem grandes problemas e a finalíssima, contra o espanhol Sergi Brugera. Os espanhóis, com sua escola tradicionalíssima no saibro, que ficou conhecida como "a armada espanhola" (cujo representante hoje é o fantástico Rafael Nadal), eram temidos. Brugera fazia uma ótima temporada e era um dos favoritos em Roland Garros. No melhor complexo de vira-latas possível, pensava: pô, final num Grand Slam, já tá bom! Mas o que eu vi naquele domingo, meu Deus! Foi mágico. Uma vitória maiúscula, incontestável. Brugera não pôde fazer nada, pq Guga fazia tudo: ótimo saque, as devoluções, paralelas, backhands, forehands, subidas a rede, passadas, dropshots, um jogo sólido, completo... 3 fucking sets a 0, parciais de 6-3, 6-4 e 6-2. Gustavo Kuerten campeão do Aberto da França de 1997. E um ídolo nascia, pra mim. Golpe de sorte? Comecei a achar que sim: depois da final em Bologna, logo após Roland Garros, poucos resultados de grande expressão, até o título do ATP Tour de Stuttgart, em 1998. Ali, a arrancada realmente começava...

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