Excalibur
Estamos tendo Literatura Portuguesa, na ordem cronológica. Já passamos pela parte das cantigas (de amor, de amigo, de escárnio, etc) e agora estamos estudando a influência causada pelo ciclo arthuriano na literatura portuguesa. Tudo bem, se não fosse por três pequenos e quase insignificantes poréns:
1) Vamos estudar o ciclo arthuriano já a partir da próxima aula de... Cultura e Literatura Britânica, ora bolas.
2) Desta forma, a impressão que fica é que a literatura portuguesa propriamente dita não apresentou nada de novo e relevante neste período. Quero estar enganado.
3) Resta óbvio que as professoras não se comunicam sobre os temas abordados. Pq essa é uma questão até óbvia: se eu ministro uma disciplina que fala da influência da literatura britânica (mas não é sobre Literatura Britânica) e sei que tem outra professora que ministra uma disciplina específica sobre literatura britânica, por que motivo não cruzo informações a fim de obter melhor informação para os alunos (repito as palavras "literatura britânica" de propósito, para explicitar o quão ridícula é a situação)? Caso agravante: a disciplina de Literatura Portuguesa é ministrada pela... Coordenadora do Curso de Letras! Ou seja, ela sabe a nossa grade. Fica a pergunta: o que esse povo conversa na sala dos professores? Onde leciono conversamos sobre amenidades, sim. Mas também sobre conteúdos dados.
(pausa: ouvindo Chris Isaak, "Speak of the Devil". Eta cara foda!)
Então, volto. Fora digressões sobre estratégias de ensino desastradas, queria mesmo era falar do filme. Ou ainda, da história.
O grande símbolo do período arthuriano é a passagem da Bretanha saxônica e bárbara, mística e mágica, para a Bretanha cristã. E o filme mostra isso com clareza: desde a concepção de Arthur, graças à magia de Merlin, que permitiu o Rei Uther se passar pelo Rei Gorlois para possuir Igraine, sua esposa, que engravidou. Então, levado por Merlin, Arthur reaparece anos depois, para tirar a espada de Excalibur da pedra onde Uther, seu pai, a havia colocado. Dizia a lenda que somente o verdadeiro rei poderia tirar Excalibur da pedra, e dessa forma Arthur fora consagrado como o rei que uniria o país - não sem um período sangrento de guerra. Mas, enfim, Arthur logrou êxito. Mas veremos que a conquista pela magia não se apoiaria por si só.
Arthur se casaria com Guinevere, de família Cristã (o que o filme, resumido q só, não conta). Guinevere começa a ter ascenção cada vez maior sobre o rei, a ponto de os costumes Cristãos começarem a ser adotados no reino. O mais irônico é que o fim da paz e prosperidade no reino arthuriano é simbolizado pela traição de Guinevere, esposa, com Lancelott, melhor amigo do Rei.
A decepção pela amarga traição faz Arthur abrir mão de Excalibur. A fome e a miséria voltam a se espalhar pela Bretanha. Para Arthur, a única maneira de o reino recuperar a prosperidade é pela conquista do Santo Graal, o cálice utilizado por Jesus Cristo em sua última ceia (coincidência: escrevo este post na sexta-feira santa, dia da paixão). E para isso, aciona seus fiéis cavaleiros da távola redonda para que o procurem.
Outro indício da dualidade cristianismo / paganismo que marca a obra (e o período como um todo): a magia pagã faz o Rei ascender ao trono. A busca por um dos maiores símbolos do Cristianismo é a única chave para seu reinado seguir pleno e próspero. Eis que o filme aborda as 02 maiores obras do período arthuriano: a lenda do Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda (essencialmente pagã) e a Busca do Santo Graal (de fundo cristão).
Achado o Graal (numa busca desenfreada, que durou mais de 10 anos), Arthur recupera a vitalidade e sai disposto a manter a Bretanha unida e devolver a prosperidade a seu povo - e o herói de volta ao seu habitat: um novo período de guerras, lutas e conquistas para a união da terra. Aliás, a saga de Arthur segue os exatos passos da mitologia do herói criada por Joseph Campbell. Qualquer dia falo disso.
Mas voltando, eis que mais um sinal da dualidade cristianismo / paganismo entrelaça as histórias: Arthur encontra Guinevere em um convento; ela, ciente da jornada que Arthur está incumbido, dá-lhe... Excalibur, que fora guardada por ela durante estes anos todos: a espada sagrada, pagã, guardada por uma cristã, em um convento. De posse da espada mágica, Arthur vai seguindo seu destino até a hora do confronto final, com imenso simbolismo do dualismo citado: a batalha final contra Mordred, seu filho com Morgana, sua irmã, que fora abençoada como sacerdotiza na antiga religião da Bretanha saxônica, com seus ritos, deusas e magos: sua grande mágoa era o iminente desaparecimento desta religião em prol do cristianismo que ganhava adeptos por toda a ilha, sob o reinado de seu irmão: sua vingança seria fazer o herdeiro do Rei (Guinevere não tinha dado um filho varão a Arthur), com sangue real mas criado nos ritos antigos, pagãos, de culto à deusa. O final: todos os traços de magia, Arthur e Mordred, desaparecem - o que não deixa de ser mais um êxito, o último, do grande rei que uniu a Bretanha na transição do paganismo ao cristianismo. A pedido de Arthur, o grande símbolo da magia pagã, Excalibur, é entregue a Dama do Lago (Viviane, irmã de Igraine, tia de Morgana), entidade que tem a incumbência de zelar pela espada, até que ela seja necessária para unificar novamente a Bretanha. O resto a história nos conta: a Bretanha virou Inglaterra, virou Grã-Bretanha, e é uma ilha eminentemente Cristã - ainda que possua uma história belíssima e rica, com suas raízes pagãs; ainda que se divida entre o anglicanismo e o catolicismo. A época arthuriana nada mais é que a narrativa desta passagem. Eis a importância da literatura: contar a história do seu povo. Dizer ao povo quem ele realmente foi, para que ele entenda quem ele realmente é.
1) Vamos estudar o ciclo arthuriano já a partir da próxima aula de... Cultura e Literatura Britânica, ora bolas.
2) Desta forma, a impressão que fica é que a literatura portuguesa propriamente dita não apresentou nada de novo e relevante neste período. Quero estar enganado.
3) Resta óbvio que as professoras não se comunicam sobre os temas abordados. Pq essa é uma questão até óbvia: se eu ministro uma disciplina que fala da influência da literatura britânica (mas não é sobre Literatura Britânica) e sei que tem outra professora que ministra uma disciplina específica sobre literatura britânica, por que motivo não cruzo informações a fim de obter melhor informação para os alunos (repito as palavras "literatura britânica" de propósito, para explicitar o quão ridícula é a situação)? Caso agravante: a disciplina de Literatura Portuguesa é ministrada pela... Coordenadora do Curso de Letras! Ou seja, ela sabe a nossa grade. Fica a pergunta: o que esse povo conversa na sala dos professores? Onde leciono conversamos sobre amenidades, sim. Mas também sobre conteúdos dados.
(pausa: ouvindo Chris Isaak, "Speak of the Devil". Eta cara foda!)
Então, volto. Fora digressões sobre estratégias de ensino desastradas, queria mesmo era falar do filme. Ou ainda, da história.
O grande símbolo do período arthuriano é a passagem da Bretanha saxônica e bárbara, mística e mágica, para a Bretanha cristã. E o filme mostra isso com clareza: desde a concepção de Arthur, graças à magia de Merlin, que permitiu o Rei Uther se passar pelo Rei Gorlois para possuir Igraine, sua esposa, que engravidou. Então, levado por Merlin, Arthur reaparece anos depois, para tirar a espada de Excalibur da pedra onde Uther, seu pai, a havia colocado. Dizia a lenda que somente o verdadeiro rei poderia tirar Excalibur da pedra, e dessa forma Arthur fora consagrado como o rei que uniria o país - não sem um período sangrento de guerra. Mas, enfim, Arthur logrou êxito. Mas veremos que a conquista pela magia não se apoiaria por si só.
Arthur se casaria com Guinevere, de família Cristã (o que o filme, resumido q só, não conta). Guinevere começa a ter ascenção cada vez maior sobre o rei, a ponto de os costumes Cristãos começarem a ser adotados no reino. O mais irônico é que o fim da paz e prosperidade no reino arthuriano é simbolizado pela traição de Guinevere, esposa, com Lancelott, melhor amigo do Rei.
A decepção pela amarga traição faz Arthur abrir mão de Excalibur. A fome e a miséria voltam a se espalhar pela Bretanha. Para Arthur, a única maneira de o reino recuperar a prosperidade é pela conquista do Santo Graal, o cálice utilizado por Jesus Cristo em sua última ceia (coincidência: escrevo este post na sexta-feira santa, dia da paixão). E para isso, aciona seus fiéis cavaleiros da távola redonda para que o procurem.
Outro indício da dualidade cristianismo / paganismo que marca a obra (e o período como um todo): a magia pagã faz o Rei ascender ao trono. A busca por um dos maiores símbolos do Cristianismo é a única chave para seu reinado seguir pleno e próspero. Eis que o filme aborda as 02 maiores obras do período arthuriano: a lenda do Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda (essencialmente pagã) e a Busca do Santo Graal (de fundo cristão).
Achado o Graal (numa busca desenfreada, que durou mais de 10 anos), Arthur recupera a vitalidade e sai disposto a manter a Bretanha unida e devolver a prosperidade a seu povo - e o herói de volta ao seu habitat: um novo período de guerras, lutas e conquistas para a união da terra. Aliás, a saga de Arthur segue os exatos passos da mitologia do herói criada por Joseph Campbell. Qualquer dia falo disso.
Mas voltando, eis que mais um sinal da dualidade cristianismo / paganismo entrelaça as histórias: Arthur encontra Guinevere em um convento; ela, ciente da jornada que Arthur está incumbido, dá-lhe... Excalibur, que fora guardada por ela durante estes anos todos: a espada sagrada, pagã, guardada por uma cristã, em um convento. De posse da espada mágica, Arthur vai seguindo seu destino até a hora do confronto final, com imenso simbolismo do dualismo citado: a batalha final contra Mordred, seu filho com Morgana, sua irmã, que fora abençoada como sacerdotiza na antiga religião da Bretanha saxônica, com seus ritos, deusas e magos: sua grande mágoa era o iminente desaparecimento desta religião em prol do cristianismo que ganhava adeptos por toda a ilha, sob o reinado de seu irmão: sua vingança seria fazer o herdeiro do Rei (Guinevere não tinha dado um filho varão a Arthur), com sangue real mas criado nos ritos antigos, pagãos, de culto à deusa. O final: todos os traços de magia, Arthur e Mordred, desaparecem - o que não deixa de ser mais um êxito, o último, do grande rei que uniu a Bretanha na transição do paganismo ao cristianismo. A pedido de Arthur, o grande símbolo da magia pagã, Excalibur, é entregue a Dama do Lago (Viviane, irmã de Igraine, tia de Morgana), entidade que tem a incumbência de zelar pela espada, até que ela seja necessária para unificar novamente a Bretanha. O resto a história nos conta: a Bretanha virou Inglaterra, virou Grã-Bretanha, e é uma ilha eminentemente Cristã - ainda que possua uma história belíssima e rica, com suas raízes pagãs; ainda que se divida entre o anglicanismo e o catolicismo. A época arthuriana nada mais é que a narrativa desta passagem. Eis a importância da literatura: contar a história do seu povo. Dizer ao povo quem ele realmente foi, para que ele entenda quem ele realmente é.
Marcadores: Bretanha, Cristianismo, cultura e literatura britânica, Excalibur, Guinevere, Igraine, Lancelot, literatura portuguesa, Morgana, paganismo, Rei Arthur

