terça-feira, 28 de outubro de 2008

Rascunhos de Letras: Teoria da Lírica (REPUBLICADO)

Eis um post de que gosto muito. Adoro Barão Vermelho, adoro Cazuza e Teoria da Lírica foi uma das matérias que mais gostei na faculdade. Nos comentários do post o Guilherme sugeriu colocar a música mas, como não achei na época, ficou por isso mesmo. Dia desses, dando um rolê no mp3tube, achei - e resolvi colocá-la aqui, republicando o post. I hope you like it.

-x-

Cazuza e barão Vermelho - Eu queria ter uma bomba
Barão Vermelho
Eu queria ter uma bomba
(Cazuza / Frejat)
Solidão a dois de dia
Faz calor, depois faz frio
Você diz "já foi" e eu concordo contigo
Você sai de perto eu penso em suicídio
Mas no fundo eu nem ligo

Você sempre volta com as mesmas notícias
Eu queria ter uma bomba
Um flit paralisante qualquer
Pra poder me livrar
Do prático efeito
Das tuas frases feitas
Das tuas noites perfeitas

Solidão a dois de dia
Faz calor, depois faz frio
Você diz "já foi" e eu concordo contigo
Você sai de perto eu penso em homicídio
Mas no fundo eu nem ligo

Você sempre volta com as mesmas notícias
Eu queria ter uma bomba
Um flit paralisante qualquer
Pra poder te negar
Bem no último instante

Meu mundo que você não vê
Meu sonho que você não crê

Eu queria ter uma bomba
Um flit paralisante qualquer
Pra poder te negar
Bem no último instante

=x=

Solidão a dois de dia
Faz calor, depois faz frio
"Solidão a dois": já não há nada que os una. Juntos, estão sós. No princípio a paixão, normalmente associado a um "fogo" interno, fala mais alto (faz calor), mas depois você fica indiferente, frio. O poeta usa este jogo de palavras para expressar sentimentos opostos, paradoxais - conseqüentemente, de difícil explicação, confusos. É como se reclamasse, como se lamentasse: ora faz calor, ora esfria...

Você diz "já foi" e eu concordo contigo
Sexo foi uma constante na obra de Cazuza. O "já foi" é o gozo perdido, descompassado, e notamos que descompassado também no sentimento. Podemos associar, nesta hora, a passagem do "quente" pro "frio". Era bom, mas "já foi". Gozávamos juntos, mas agora "vc diz: já foi". E o poeta concorda.

Você sai de perto eu penso em suicídio, mas no fundo eu nem ligo
Cazuza recorre ao paradoxo novamente: ele chega a pensar em se matar, ainda que "nem ligue" - outro indício de quão confuso está. Leitura possível: não é um sentimento profundo. É superficial, mas, ao aventar até o suicídio, mostra-se forte, passional. Animalesco, essencialmente sexual.

Você sempre volta com as mesmas notícias
Ou é ele quem está de saco cheio dela?

Eu queria ter uma bomba
Um flit paralisante qualquer
Pra poder me livrar
Do prático efeito
Das tuas frases feitas
Das tuas noites perfeitas
Aqui o poeta é refém como de um encanto, de um feitiço. Por mais que racionalmente ele queira se livrar do prático efeito de frases feitas e noites perfeitas, Cazuza não consegue, a ponto de recorrer à bombas ou flitis paralisantes. O que nos leva a reforçar a crença em uma paixão sexual, apresentando assim o dilema central: a companhia não agrada, mas me proporciona noites plenas de satisfação. Na sonoridade, a colocação de palavras como "PRA, liVRAR, PRÁtico e FRAses" ajudam a passar a impressão de insatisfação, de indignação da vítima do encanto.

E na segunda parte, outro aspecto que leva ao paradoxo: do suicídio do primeiro verso ao homicídio:
Você sai de perto eu penso em homicídio, mas no fundo eu nem ligo

Meu mundo que você não vê
Meu sonho que você não crê
Eis a revelação das razões que o levaram ao desencanto: o poeta não enxerga na atual companhia uma verdadeira companheira; não enxerga a possibilidade de dividirem um "mundo" e um "sonho"; deduzimos, então, que a pessoa é, com suas "frases feitas", alguém talvez egoísta?
JustificarAlienada? Ou simplesmente não sente com a intensidade demonstrada até aqui - indiferente, portanto? Nova leitura se abre: o poeta abriu mão do ser amado ou usa os versos para se lamentar daquela que não partilhava sonhos e mundos? Ainda: ele reclama que ela "sempre volta com as mesmas notícias". Será que ela não pensa o mesmo dele? Daí um não enxergar o mundo do outro, não crer no mundo do outro?

E, como isso é uma letra de música e não um poema, vale destacar o final:
Eu queria ter uma bomba
Um flit paralisante qualquer
Pra poder te negar
Bem no último instante
Interessante é que a parte instrumental da música acaba exatamente quando Cazuza pronuncia a tônica "úl", em "ÚLtimo instante", como se realizasse o desejo expresso pelas palavras. E como sabemos que é de sexo que ele fala, temos realçada a imagem do recado dado, que há sim uma bomba eficaz. O poeta logrou êxito: de uma forma alegórica, conseguiu o intento de negar "bem no último instante". No caso, música às palavras. E riu por último.

Um clássico absoluto do rock brasileiro.

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sexta-feira, 25 de julho de 2008

Tá de sacanagem

Assisti ontem ao ótimo programa "Que Rock é esse?", muito embora o apresentador seja o Beto Lee (é, ele tem não um, mas DOIS programas no Multishow!). Ótimo porque deu uma geral no Rock In Rio I, de 1985, o primeiro grande evento internacional no Brasil, etc, etc.
Me chamou a atenção a opinião de um cara que sempre admirei muito, Roberto Frejat, do Barão Vermelho: aquela velha ladainha que os artistas brasileiros deveriam ser mais respeitados, pois eles que provaram ter demanda pra públicos de rock no Brasil... nada mais estúpido: Queen, Kiss, Frampton, Alice Cooper, todos já tinham vindo antes para o Brasil e foram totalmente sold out (o Queen sozinho lotou o Morumbi!). Ainda que não fosse por esse motivo, mesmo que não tivesse motivo algum, teríamos:
- Queen na época do Radio Ga Ga;
- Iron Maiden na tour do Powerslave, auge da banda;
- Scorpions com Love at first bite, Still Loving You estouradaça;
- AC DC já consagradíssimo;
- James Taylor, Rod Stewart, Ozzy Osbounre...

E, em 1985, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Kid Abelha, Lulu Santos, entre outros, queriam a mesma estrutura desses caras? Tá de sacanagem, né? Alguém já falou pra esses caras sobre "relevância artística"? E ainda falam que isso não acontece pela mentalidade do brasileiro, de "eterno colonizado"; afinal, o festival era aqui, "a gente que fez isso acontecer". Eta pobreza: de espírito e intelectual. Colonizado é a esse papo revanchista, de eterno oprimido: "Esses caras que dominem lá nas terras deles; na minha senzala mandou eu". Ademais, os próprios artistas entrevistados admitem que aprenderam muito com o evento, em termos profissionais, estruturais. Papo besta. Pisou na bola, Frejat. Lúcidos foram Lulu Santos e Nelson Motta (este, sempre), que viram no evento uma oportunidade de intercâmbio e crescimento.
O brasileiro, começo a crer de verdade, não só não desiste como não aprende nunca.

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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Rascunhos de Letras: Teoria da Lírica

Barão Vermelho

Eu queria ter uma bomba

(Cazuza / Frejat)


Solidão a dois de dia
Faz calor, depois faz frio
Você diz "já foi" e eu concordo contigo
Você sai de perto eu penso em suicídio
Mas no fundo eu nem ligo

Você sempre volta com as mesmas notícias
Eu queria ter uma bomba
Um flit paralisante qualquer
Pra poder me livrar
Do prático efeito
Das tuas frases feitas
Das tuas noites perfeitas

Solidão a dois de dia
Faz calor, depois faz frio
Você diz "já foi" e eu concordo contigo
Você sai de perto eu penso em homicídio
Mas no fundo eu nem ligo

Você sempre volta com as mesmas notícias
Eu queria ter uma bomba
Um flit paralisante qualquer
Pra poder te negar
Bem no último instante

Meu mundo que você não vê
Meu sonho que você não crê

Eu queria ter uma bomba
Um flit paralisante qualquer
Pra poder te negar
Bem no último instante

=x=

Solidão a dois de dia
Faz calor, depois faz frio
"Solidão a dois": já não há nada que os una. Juntos, estão sós. No princípio a paixão, normalmente associado a um "fogo" interno, fala mais alto (faz calor), mas depois você fica indiferente, frio. O poeta usa este jogo de palavras para expressar sentimentos opostos, paradoxais - conseqüentemente, de difícil explicação, confusos. É como se reclamasse, como se lamentasse: ora faz calor, ora esfria...

Você diz "já foi" e eu concordo contigo
Sexo foi uma constante na obra de Cazuza. O "já foi" é o gozo perdido, descompassado, e notamos que descompassado também no sentimento. Podemos associar, nesta hora, a passagem do "quente" pro "frio". Era bom, mas "já foi". Gozávamos juntos, mas agora "vc diz: já foi". E o poeta concorda.

Você sai de perto eu penso em suicídio, mas no fundo eu nem ligo
Cazuza recorre ao paradoxo novamente: ele chega a pensar em se matar, ainda que "nem ligue" - outro indício de quão confuso está. Leitura possível: não é um sentimento profundo. É superficial, mas, ao aventar até o suicídio, mostra-se forte, passional. Animalesco, essencialmente sexual.

Você sempre volta com as mesmas notícias
Ou é ele quem está de saco cheio dela?

Eu queria ter uma bomba
Um flit paralisante qualquer
Pra poder me livrar
Do prático efeito
Das tuas frases feitas
Das tuas noites perfeitas
Aqui o poeta é refém como de um encanto, de um feitiço. Por mais que racionalmente ele queira se livrar do prático efeito de frases feitas e noites perfeitas, Cazuza não consegue, a ponto de recorrer à bombas ou flitis paralisantes. O que nos leva a reforçar a crença em uma paixão sexual, apresentando assim o dilema central: a companhia não agrada, mas me proporciona noites plenas de satisfação. Na sonoridade, a colocação de palavras como "PRA, liVRAR, PRÁtico e FRAses" ajudam a passar a impressão de insatisfação, de indignação da vítima do encanto.

E na segunda parte, outro aspecto que leva ao paradoxo: do suicídio do primeiro verso ao homicídio:
Você sai de perto eu penso em homicídio, mas no fundo eu nem ligo

Meu mundo que você não vê
Meu sonho que você não crê
Eis a revelação das razões que o levaram ao desencanto: o poeta não enxerga na atual companhia uma verdadeira companheira; não enxerga a possibilidade de dividirem um "mundo" e um "sonho"; deduzimos, então, que a pessoa é, com suas "frases feitas", alguém talvez egoísta? Alienada? Ou simplesmente não sente com a intensidade demonstrada até aqui - indiferente, portanto? Nova leitura se abre: o poeta abriu mão do ser amado ou usa os versos para se lamentar daquela que não partilhava sonhos e mundos? Ainda: ele reclama que ela "sempre volta com as mesmas notícias". Será que ela não pensa o mesmo dele? Daí um não enxergar o mundo do outro, não crer no mundo do outro?

E, como isso é uma letra de música e não um poema, vale destacar o final:
Eu queria ter uma bomba
Um flit paralisante qualquer
Pra poder te negar
Bem no último instante
Interessante é que a parte instrumental da música acaba exatamente quando Cazuza pronuncia a tônica "úl", em "ÚLtimo instante", como se realizasse o desejo expresso pelas palavras. E como sabemos que é de sexo que ele fala, temos realçada a imagem do recado dado, que há sim uma bomba eficaz. O poeta logrou êxito: de uma forma alegórica, conseguiu o intento de negar "bem no último instante". No caso, música às palavras. E riu por último.

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